O Eco da intertextualidadeO Cacopédia apresenta aos amigos blogueiros o primeiro Eco, das muitas homenagens que certamente virão ao grande mestre italiano. Teremos, de quando em quando, uma luz daquele que, sem sombra de dúvidas, é um dos maiores intelectuais da atualidade. Uma boa oportunidade para quem quer ter contato com os escritos do criador de O nome da rosa, mas que lamenta o fato do autor não ser tão divulgado, aliás, como tantos outros.
Neste primeiro texto, extraído da revista Entrelivros, na qual Eco é colunista mensal, o autor reflete sobre a construção de “templos falsos”. A necessidade de ambientes artísticos voltados para o turismo de massa, que como estou podendo perceber, muitas vezes contempla mal o espaço, ou nem isso.
Neste primeiro texto, extraído da revista Entrelivros, na qual Eco é colunista mensal, o autor reflete sobre a construção de “templos falsos”. A necessidade de ambientes artísticos voltados para o turismo de massa, que como estou podendo perceber, muitas vezes contempla mal o espaço, ou nem isso.
O falso necessário
Leio nos jornais e na internet que em Albanella, a 20 km do templo de Paestum e a 60 km do templo de Velia, vai ser construído, com despesa de 1 bilhão e 500 mil euros, um parque arqueológico chamado Megale Hellas (que afinal significa Magna Grécia) com um templo falso, mas íntegro, todo em concreto revestido de travertino. Quem polemiza com a iniciativa diz que a poucos quilômetros dali há um templo verdadeiro do século IV-V a.C. dedicado a Demétria, e que ninguém pensa em trazê-lo à luz. Quem apóia a iniciativa pensa, ao contrário, em um fluxo turístico maior do que aquele que os templos verdadeiros – para dizer a verdade todos um tanto desbeiçados – permitem, e há de ter em mente a Veneza reconstruída em Las Vegas e talvez até as diversas Disneylândias: todas iniciativas das quais podemos dizer o que quisermos, menos que não atraiam pessoas (e dinheiro).
Compreendo a reação dos que se escandalizam com o fato, e sinto contribuir para sua perturbação ao afirmar que todos deveríamos ser mais que favoráveis a essas empreitadas, e precisamente para salvar nosso patrimônio artístico.
De fato, noutros tempos os lugares sagrados das artes e da história eram visitados apenas por viajantes aristocráticos e o caso inspirava algumas reflexões melancólicas, não só por motivos de justiça social, mas também porque para aqueles viajantes enfeitiçados estava muito bom que igrejas e palácios estivessem caindo aos pedaços, as grandes telas abandonadas em sacristias para lá de úmidas, as estátuas antigas incrustadas de liquens. Depois teve início um turismo “burguês”, sempre de elite, mas representado por centenas de milhares de viajantes cultos e sensíveis; para ir ao encontro de suas exigências, os lugares e as peças artísticas foram restaurados, e aquele fluxo turístico levou benefícios econômicos a povoados e cidades.
Em uma terceira etapa, com o advento do turismo de massa, metrópoles e lugarejos talvez tenham incrementado suas entradas, mas ficaram mais feios e emporcalhados, virando lixões de latinhas de Coca-Cola e saquinhos de plástico. E quanto às obras de arte, sabemos perfeitamente que a respiração de milhões de visitantes não raro as coloca em perigo, e se o pé de certas estátuas de santos já está alisado e deformado pelo toque contínuo dos fiéis, nem sequer as pirâmides poderão agüentar muito tempo mais o diário arrastar de pés de seus visitantes.
O que fazer? Impedir o acesso das multidões às obras de arte, indo assim contra qualquer ideal democrático, portando-se como reacionários que louvam os tempos idos, auspiciando a volta do turismo de pouquíssimos? Desestimular as visitas, como já aconteceu com a Última ceia, de Leonardo da Vinci, em Milão, onde o número de visitantes permitido a cada vez, as filas, a antecedência com a qual é preciso reservar fazem com que, de fato, muitas pessoas, apesar de terem suficiente dignidade cultural para tirar proveito daquela experiência, tenham de desistir da empreitada? Lastimar de forma racista que o lugar delas tenha sido tomado por bandos de asiáticos em vôos charter, pessoas que nem sequer sabem direito o que vão ver, assim como para um europeu que vai ao Oriente um templo, no fundo, vale pelo outro, e sempre temos a impressão que quando vimos um deles já vimos todos?
Antes, é preciso tirar proveito das tendências naturais do turismo de massa, que levam a visitar indiferentemente a Pietà Rondanini, última obra de Michelangelo, e o Mulino Bianco, a locação de um famoso comercial de TV. Imaginem quantas pessoas ficarão muito mais satisfeitas com o falso templo de Albanella, inteirinho e reluzente, do que com aquele que sobreviveu com tanta dificuldade em Paestum. Que aquela multidão onívora seja então desviada para Albanella, e que se deixe Paestum para os que o visitam com conhecimento de causa.
Como seria produtiva uma Uffizylândia situada na periferia de Florença, com reproduções perfeitas dos quadros da galeria degli Uffizi. Já que as pessoas se amontoam diante do Palazzo Vecchio para admirar um David que não é o original (mas não sabem disso, ou não se preocupam), por que não deveriam ir à Uffizylândia? Menos bocas impuras colocariam em risco, com seus hálitos mefíticos, a Primavera, de Botticelli.
E não venham me dizer que a discriminação seria “classista”, que separaria os refinados dos trogloditas: é verdade, faria isso mesmo, mas cada qual decidiria se pertence a uma categoria ou à outra por livre escolha e não por sentença social. Aliás, à diferença dos proletários em termos marxistas, os novos proletários da arte sequer saberiam sê-lo, e se considerariam satisfeitos e sortudos por ter visitado, entre tantos, o templo que mais brilha, feito novo.
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